Resolvi trocar de violão.
Como boa parte das verdadeiras decisões na vida, é emocional e não envolve cálculos. Pelo menos não cálculos que relacionem a decisão a outras áreas da vida (o dinheiro vai fazer falta? não há coisas mais importantes com que gastar dinheiro? etc), mas apenas avaliações internas da questão: qual modelo, qual formato, qual tamanho.
O importante é fazê-lo. Depois de muito tempo, constatei: o violão é o objeto ao qual dou mais importância e me relaciono. Mais do que o computador, o tocador de música ou o relógio de pulso. Passo bem sem qualquer dessas coisas por muito tempo sem dar pela falta delas. Quando viajo, esqueço o e-mail ou a internet; a música pode vir de várias fontes, inclusive da simples memória; o tempo se impõe naturalmente. Mas o violão é insubstituível. Quando não posso levá-lo, faz falta. É em grande parte o ato físico de empunhá-lo, atingir as cordas, fazer emanar som. Mas também é o ato de afeto, de parceria e de extrema fragilidade que existe na relação entre o tocador e o violão. A mesma fragilidade que mantém a tensão e o fascínio pela figura do trovador – um solitário e seu violão contra o mundo.
A parte menos romântica da história é que também é preciso seguir em frente. Junto com a constatação da importância do instrumento, veio a segunda: preciso de um MELHOR.
O meu Condor CS22, coitado, sempre foi simplório. Como eu continuo sendo, músico amador de técnica limitada e sem repertório. Mas alguém tem que seguir em frente. Há tantos violões por se tocar.
A busca agora é pelo exemplar exato. Tudo importa: o peso, a cor, o cheiro, a textura da madeira contra a pele, a concavidade do braço, o timbre, o volume do som. Todos são diferentes entre si – esse audioslide do NYT sobre a fábrica da Martin é um exemplo perfeito do tipo de magia que um bom violão pode exercer. Aliás, o Martin HD-28 é o sonho de consumo, a 3.300 dólares.
A caça começa em abril.
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