Escrevi isso no início de 2008 para algum outro lugar e acabei não publicando. Relendo, percebi que estava falando sobre meu álbum preferido na década. É uma boa hora para publicar.

Ouvi Wilco pela primeira vez em Yankee Hotel Foxtrot, mas o barato só bateu com A Ghost is Born. Mais precisamente, com Spiders.
É curioso que tudo parta da faixa mais estranha da discografia da banda. São 11 minutos de uma batida circular, inspirada no krautrock, pontuada por versos incompreensíveis e guitarras retorcidas e pontudas. Uma seção instumental de rock de arena faz as vezes de refrão, e logo se esvai.
O disco inteiro se presta a essas fusões e metamorfoses. Abre com At Least That’s What You Said, um lamento ao pé do ouvido, quase inaudível, que desemboca numa fúria de solos de guitarra de deixar Neil Young com priapismo. Em Hell is Chrome, o tema do rockstar atormentado vira uma calma e resignada auto-entrega para o abismo da ordem e da contenção. O que era pra ser de um jeito acaba se transformando, sempre.
Por trás da maioria das faixas, o tema da identidade se repete. A pergunta sobre quem se é e quem querem que sejamos vai e vem, direta ou sugerida, enunciada ou orquestrada. A música acompanha. Poucos discos trazem transições instrumentais e melódicas tão geniais quanto este. Muzzle of Bees, Theologians, quase todas as músicas se expandem e se retraem como organismos vivos. Jeff Tweedy nunca tocou guitarra tão bem.
E há o lance dos ruídos também. Aí vale uma contextualização.
Tweedy, líder e principal compositor do grupo, sofre de síndrome do pânico e enxaqueca crônica. Na época de produção do álbum, as crises se agravaram e ele se viu obrigado a internar-se numa clínica para cuidar não só dessas doenças, mas também do vício em analgésicos decorrente delas. O disco tem reflexo disso. Mais do que a anedótica reprodução da dor de cabeça por meio de microfonias intermináveis, acaba sendo uma demonstração de entrega artística. A forma que Tweedy achou de lidar com esses problemas foi incluí-los palpavelmente no seu trabalho. Por ser tão emocional e pessoal, é provavelmente o disco mais difícil do Wilco. Não no sentido do experimentalismo do Yankee Hotel Foxtrot, geralmente eleito neste posto, mas porque as músicas relacionam-se entre si e se transformam sem concessões, para além dos próprios limites. Clássico absoluto.
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4 comentários Postar um comentário ou enviar um trackback.
Eu gosto de A Ghost is Born, mas ainda acho que YHF é o melhor disco dos anos 00. Você provavelmente já deve ter visto, mas recomendo pra todo mundo que gosta de Wilco assistir “I Am Trying to Break Your Heart”, um filme que mostra os bastidores das gravações do Yankee Hotel Foxtrot, mostra as crises de enxaqueca do Tweedy, as negociações para o lançamento do album, as brigas de Tweedy com o falecido Jay Bennett… é muito bom! Se encontrarem a versão dupla do DVD, comprem.
BRAVO
as legendas em português pro filme EU QUEM FEZ -> http://seufelipe.com.br/arquivos/IATTBYH.zip
Pô, que momento, que momento.