música, surrealismo

cortejo à onipotência

Isso é tão revolucionário, maluco, improvável e extraordinário que, ao mesmo tempo em que babo de vontade de experimentar pessoalmente, também desejo com ardor que seja um muitíssimo bem feito boato digital, tamanha a desconcertação.

Como resumiu o Alexandre Matias, é o photoshop do som. Vejam o vídeo:

A julgar pela amostra, não haveria mais limites para a manipulação sonora. Seria o esvaziamento total da performance? Ou justamente o contrário? Tendo a apostar na segunda hipótese.

Imaginem: se até hoje somos iludidos facilmente por manipulações visuais razoavelmente bem-feitas, a nanomanipulação sonora (ou sei lá que termo usar pra isso; supermanipulação?), totalmente inédita nesses termos, seria praticamente indistingüível da coisa real (real onde mais?). Como identificar o que não é manipulado, ou é manipulado em níveis “normais”, do que é ajustado com o Melodyne? (Meu deus, olhem esse nome. Sci-Fi pura, sem gelo)

E qual o papel do instrumento musical? Um periférico qualquer? Mero meio de input grosseiro? Se unirmos o sampling, o sintetizador, o emulador e o Melodyne, caixinha de fósforo pode virar bateria eletrônica…

Ao mesmo tempo, a performance ao vivo pode ganhar mais importância cultural. De cara relembro o conceito de aura dos alemães da Escola de Frankfurt, de como esse senso de importância e relevância que emana da obra artística (que supostamente se esvaiu na “era da reproductibilidade técnica”) retorna com violência na era da simulação e da manipulação digital. Seria o tira-teima, a manifestação “honesta”, sem filtros. É de se perguntar o valor que conferiremos a essas coisas no futuro próximo, ou mesmo que conferimos hoje, mas o impacto dessa performance da música sem mediação ainda está pra ser visto.

Isso sem contar no impacto criativo. Se com mash-ups a coisa já atinge misturas incríveis, com esse programa o limite é infinito. Mais do que misturas, imaginem releituras de músicas conhecidas. Joy Division todo em acordes maiores, alegres e ensolarados. O desafio de fazer a banda A fazer um cover da banda B com suas próprias músicas. É tanta possibilidade, desde as mais imbecis às mais sofisticadas, que não vale a pena gastar todos os neurônios de uma só vez. Ao que parece, gastaremos todos juntos.

Isso se não for o vaporware mais sensacional já pseudofabricado.

Vou lá deitar pra ver se passa a dor de cabeça.

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