Texto originalmente publicado no especial de Halloween do site Colherada Cultural.

Entre os cinéfilos, há um gênero que atrai carinho consideravelmente maior que os demais: o horror. É uma preferência que pode ser medida pelo nível de especialização de vários festivais espalhados pelo mundo, como o Fantastic Fest, no Texas, e o Fantasporto, em Portugal, ou as publicações temáticas e notavelmente longevas, como a “Fangoria”, em circulação desde 1979, e a “Famous Monsters of Filmland”, desde 1958. Ou basta discutir o tema com o amigo fascinado por filmes sangrentos e obscuros da década de 1970. O brilho no olhar diz muito. Há motivo.
A diferença do horror para os demais gêneros é relativamente simples de ser explicada: a imensa maioria é composta por obras de orçamentos paupérrimos, produzidas sem expectativa de sucesso comercial ou aprovação da crítica “séria”. O grande público, e a crítica que lhe serve, presta, em geral, pouca ou nenhuma atenção a essa produção gigantesca. E essa “maldição”, digamos (para efeitos irônicos), é boa parte da força desses filmes: desobrigados das amarras da necessidade de agradar, seus realizadores percorrem território vasto e livre, fora do alcance de convenções sociais, noções de politicamente correto e até mesmo do que se é normalmente considerado de “bom gosto”. É uma belíssima condição para a criação de… arte. E do tipo raro, com pouca ou nenhuma concessão.
Nesse ponto da conversa, caso seu objetivo secreto fosse a validação do horror como um gênero respeitável junto a seus pares nas prateleiras das locadoras, nomes mágicos poderiam ser citados habilmente, como o “O Bebê de Rosemary” (1968) de Polanski , o “Nosferatu” (1922) de Murnau ou o “Psicose” (1960) de Hitchcock, na construção de uma defesa do gênero pelo fato de que ele também “acrescenta”, “faz pensar”, “discute temas importantes” ou alguma outra baboseira utilitarista.
Eis minha tese: o cinema de horror fascina tanto pois ele lida mais intensamente, e sem censuras, com a própria essência do cinema, que é de emocionar e provocar o público pela inclemente combinação de imagem e som em movimento. Sabendo disso, diretores talentosos percebem a vastidão do playground de que dispõem e se deleitam criando obras ousadas e arriscadas, seja na forma ou no conteúdo.
Evidente que surge muita coisa ruim no caminho. É o resultado natural desse tipo de liberdade, que chega a fazer parecer simples a construção de um filme de horror — como se bastasse colocar malucos mascarados degolando virgens numa floresta etc.
Não é simples, mas é um gênero que premia a ousadia. Dois exemplos notórios são Sam Raimi e Peter Jackson, diretores de duas das franquias mais rentáveis da história do cinema (“Homem-Aranha” e “O Senhor dos Anéis”, respectivamente) e que começaram dirigindo pequenos filmes de orçamento baixíssimo e nível de gore (sangue e vísceras à mostra), violência e humor incomparáveis até hoje — Raimi com a série “Evil Dead” (o primeiro é de 1981), Jackson com comédias de pastelão-gore como “Fome Animal” (1992) e “Bad Taste” (1987). Os efeitos visuais dos blockbusters de ambos, contudo, são claramente visíveis nesses primeiros filmes, experimentais até o osso exposto. É uma escola completa.
Outro exemplo é o “Halloween” (1978), de John Carpenter, que criou o gênero de “assassino mascarado” com um filme baratíssimo para qualquer época, US$ 320 mil, mas que, diferente de suas inúmeras cópias surgidas ao longo dos anos, lida pouco com sangue e muito mais com a hábil manipulação via montagem e som para assustar. Puro artesanato audiovisual.
No fim das contas, o bom cinema de horror oferece isso: inventividade, ousadia e domínio formal. Seus cineastas são, geralmente, cinéfilos tão ou mais radicais que a própria plateia, e sabem muito de cinema. São artesãos de todos os lugares: italianos como Dario Argento, Lucio Fulci e Mario Bava, japoneses como Takashi Miike, canadenses como David Cronenberg, franceses como Alexandre Aja. E surgem malucos a todo momento, como o sueco Tomas Alfredson e seu tratamento não-convencional sobre vampiros em “Deixa Ela Entrar” (2008), na contramão da onde de vampirismo clichê de “Crepúsculo” e similares.
O que falta ao horror, se é que isso seja fato desejável, é o mesmo tipo de passe livre que a comédia possui para existir como variação de si mesma, sem propósitos pretensamente nobres ou temáticas “intelectuais” como justificativa. A comédia pode ser julgada pelo seu efeito emocional direto — o riso. Ora, o objetivo do horror é provocar também uma reação emocional, mas de diferente ordem: o desconforto, o asco, o medo. Há nobreza e arte na tarefa.
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6 comentários Postar um comentário ou enviar um trackback.
Brian Yuzna, tá aí um diretor com uma carreira bem legal por filmes de terror, mas que geralmente é deixado de lado quando surge o assunto.
Minha mãe não deixa eu assistir filmes dessa vertente, mas assim que der vou assistir o tal do Holocausto Canibal, minha prima disse que é bacaninha.
Grande texto, gostei da crítica ao contexto utilitarista em que querem inserir a arte, gostei dos símiles e das comparações, gostei da ilustração, gostei das tags, gostei dos comentários. Ok, das tags eu não gostei, disse isso só pra ser simpaticão e tal.
Li apenas a última frase do texto e concordo em parte. Apenas em parte. Saudações.
Ótimo post! Amo demais o gênero ”horror”!
Se liga nesse curta que eu criei http://www.youtube.com/watch?v=DStxczwnGcw Ah, me inspirei nos filmes trash, de antigamente
Fiz também um trailer do meu próximo filme http://www.youtube.com/watch?v=Wmz9C-E3CiA
Espero que goste =)
Ótimo post, muito bem citado e exemplo de Fome Animal. O filme está muito sintonizado com a comedia pastelão, diferentemente de Evil Death que, apesar de não se levar a sério [o que é uma das maiores qualidades do filme, na minha humilde opinião], não tem tanta frequência em piadas ou situações comicamente absurdas. Então, tendo em vista sua conclusão, Fome Animal, de certa forma, seria um exemplo de “o melhor de dois mundos distintos”?
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