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Fico sinceramente feliz que um filme como Anticristo possa ser feito, e ainda mais radiante pela minha liberdade em poder vê-lo e experimentar uma longa sensação de anestesia cerebral, o mesmo tipo de tédio que me ocorre diante de crianças que esperneiam e esperneiam, em surtos de escândalo inegociável.

Qualquer tipo de filme anômalo é um alívio. Não importa procedência, intenção ou qualidade: é importante tê-los. São os picos ou depressões que distorcem a linha plana da mesmice – que também é importante: mesmice é o que movimenta dinheiro, mantém a constância no fluxo de caixa da indústria e gera a insatisfação ocasional que, com sorte, financia em paralelo materiais diferentes, pouco comuns.

Os filmes do Lars von Trier certamente não são comuns. Mas não são necessariamente bons. Anticristo, pro meu gosto, não é. Principalmente por sua crença tão profunda na própria capacidade de “provocar”. A metáfora do primeiro parágrafo permanece: von Trier parece uma criança esperneando, convencida de que sua tática pode ser repetida com sucesso, e ainda melhor se acrescida de novos truques envolvendo, quem sabe?, automutilação genital. Quem ignoraria tal show?

O problema não é a provocação, é a provocação ruim, vaga, contida em si mesma e sem correlação com nada coerente. Todo o pretenso simbolismo religioso e psicológico soa vigarista e em poucos momentos há a impressão de que algo de humano esteja sendo abordado. Como filme de horror, acaba sendo mais raso do que O Albergue ou Jogos Mortais, que pelo menos são consistentes em seu moralismo e opção pela mutilação como show estético.

Ao mesmo tempo, esse tipo de delírio egocêntrico parece fascinar por ser estranhamente direto em sua trapaça. É como se o filme inteiro fosse o MacGuffin para a história maior, de ode à auto-importância do autor genial e atormentado. O filme, em si, parece não interessar para von Trier. Não deveria importar para nós também.

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22 comentários Postar um comentário ou enviar um trackback.

  1. Marcelo Bragança, 13/10/09

    Vou comentar pra tu não se sentir tão sozinho. Abs

  2. Chico Barney, 13/10/09

    Essa comparação com JOGOS MORTAIS e O ALBERGUE foram apenas para CHOCAR.

    VON TRIER DE SI MESMO.

  3. Guilherme gaspar, 13/10/09

    Baixei e desisti naquele prólogo constrangedor.

  4. Nina, 13/10/09

    lars von trier é sempre von trier. sua resenha só me fez querer ver o filme mais ainda :~

  5. Raphael Bertolli, 13/10/09

    Lars von Trier está para o novo cinema de suspense, como Mirella Santos para o cinema de entretenimento adulto brasileiro.
    Sem mais.

  6. Eric Samuel, 13/10/09

    O filme é esteticamente lindo… além de que Von Trier deixa totalmente de lado os traços do “Dogma 95″. Vi duas vezes no cinema, a primeira vez, achei genial! Já na segunda não me pareceu tão genial assim, mas percebe-se claramente que vai muito além do que somente chocar… mas é uma grande obra, pra fãs do diretor. E ainda trás uma grande atuação da Charlotte.

  7. Marco Chaparro, 13/10/09

    Cara, comentários precisos.

  8. Hans Guro, 13/10/09

    Este filme é o equivalente cinematográfico a uma cagada na cara de alguém que está dormindo.

  9. Hector Lima, 13/10/09

    ótima resenha!

    Lars Von Trier é o maior picareta vivo do Cinema atual.

    vi DANÇANDO NO ESCURO e me prometi nunca mais ver nada dele. o Dogma foi a melhor coisa que puderam fazer na falta de um assessor de imprensa.

    ANTICRISTO deve ser o maior engana-jornalista de 2009 [não vi no cinema nem quero gastar banda da minha conexão pra baixar]. e o próximo dele é sobre um planeta chamado Melancolia – metáfora que já vem explicada? – que se aproxima da Terra e promete ser um filme-catástrofe. a gente sabe que vai ser.

    queria que o Michael Bay encontrasse o mané na rua e botasse o pé pra ele tropeçar.

    • flavia, 13/10/09

      pô, entendo completamente não gostar de lars von trier.
      mas primeiro assiste os idiotas, dogville e manderlay! :P

  10. Tamine Maklouf, 13/10/09

    Esses comentários são típicos de quem não entendeu a história (mensagem) do filme. Eu não entendi porra nenhuma, por iso também fiquei “toda revoltadinha” e procurando por argumentos mirabolantes e coesos pra justificar minha ignorância.
    Este é um daqueles filmes que se pode chamar, enfim, de “intelectual”, strictu sensu, pois requer um repertório de informação além do que qualquer faculdade de jornalismo pode dar para uma pessoa.

    • Daniel Lima, 13/10/09

      Pode até ser, Tamine. Mas, às vezes, quando parece que não há nada lá, é porque não tem mesmo.

      • Tamine Maklouf, 13/10/09

        Não sei. A pessoa que assistiu comigo entendeu coisas que realmente, depois analisando, estavam lá. Soltei vários “nossa, é mesmo” depois.
        Abs!

      • Tamine Maklouf, 13/10/09

        Você assistiu “Stalker”? No Anticristo, o Lars von Trier quis fazer tipo uma homenagem ao Andrei Tarkovsky (no fim do filme tem uma referência). Acho que vale a pena ver de novo pra sacarmos mais da “pegada”. eheheh

      • Daniel Lima, 13/10/09

        Ainda não! Tá baixado há meses, mas não vi. Preciso ver.

        Mas em relação a seu comentário anterior: que tipo de coisas que essa pessoa notou e vc achou interessante? Pois é como eu disse: certamente há metáforas ali, mas não acho que seu conjunto forme algo particularmente interessante (ou mesmo coeso).

  11. cris, 13/10/09

    depois que vi fiquei pensando no michael haneke. que, pra mim, também só quer fazer a gente sofrer. talvez com um pouquinho mais de sofisticação em sua perversidade e logrando êxitos mais consistentes, portanto. passei cabreira pela penetração slo-mo, passei bocejante pela terapia domiciliar de casal toda errada, passei descrente pela analogia inferno/éden. mas tava indo, tava disposta. o que fodeu tudo de vez pra mim foi a raposa mesmo. porra, é muito tapa na cara da sociedade, aquela raposa. reunião do diretório acadêmico, sabe? pessoal em chamas cazuzando, gritando pra avisar que a tua piscina tá cheia de ratos. não tenho serotonina pra isso.

    e a história da mutilação genital não é muita novidade, né? pessoal esqueceu do bergman? o próprio haneke lá na professora de piano? não sei por que todo o espanto. porque o french clit de charlotte apareceu em close na tesourada? (e nem pra fazer em 3d, distribuir os óculos na entrada? come on, sabe quanto tá custando uma entrada inteira esses dias?)

  12. Hector Lima, 13/10/09

    acho a linha de raciocínio da tamine [ou de seu amigo] o reflexo da proposta elitista do von trier. “vc é burro e não entendeu, não tem bagagem pra interpretar”.

    uns amigos jornalistas ficaram bem putos no twitter com o “engana-jornalista” que eu soltei aqui, haha. sinto um culto lvt se formando…

    já a [o] cris se estivesse na minha frente eu abraçava.

  13. Cintia Costa, 13/10/09

    Se a intenção do senhor Lars era causar na platéia uma sensação constante de agonia e repulsa, tá de parabéns. Ê filminho nervoso.

  14. Marco Aurélio, 13/10/09

    Não vi e nem vou ver. Confio no seu julgamento.

  15. Renan Abreu, 13/10/09

    Não preciso assistir meia dúzia de Pasolinis para deflagrar simbolismos religiosos e psicológicos sem gore. Pelo que entendi é um filme sincero, mas forçadão. Não me despertou vontade de assistir.

  16. wat, 20/10/09

    Como todo crítico, você é um acéfalo ignorante retardado mental.

    O filme rende livros de psicológia e filosofia. O filme vai de Nietzsche à Jung. De Lacan à Deleuze.

    Exemplo: http://www.orkut.com.br/Main#CommMsgs?cmm=96630&tid=5375567100672407512&start=1

    Falar que esse filme não faz sentido é natural. SIgnifica que você faz parte dos 99,99% dos ignorantes que vivem nesse Planeta.

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