Fui pensando no assunto devagar, puxando pela memória um e outro, e acabei chegando a uma compilação decente. Percebam que não são, sob qualquer aspecto, os melhores da década, apenas aqueles de que mais gostei de ver entre os que de fato vi – e vi, obviamente, apenas pequena parcela do que poderia ter visto. Algumas escolhas são idiossincrasia pura, geralmente orientadas por afeto e até pelo gosto por certos defeitos desses filmes. Defeitos charmosos, aquela coisa. Pode haver omissões graves aí, mas não tem carinho declarado em vão.
2000 – Ei, Meu Irmão, Cadê Você?, Ethan e Joen Coen
Algo nesse filme me faz sorrir o tempo todo. Os Coen acertaram muito na década, mas este sempre sobressai na memória. O sotaque caipira, os diálogos rápidos, a música como elemento da trama, a jornada nonsense: é muita coisa pra delirar.
2000 – Audition, Takashi Miike
Vi muito pouco, quase nada da obra do Miike (são algumas dezenas de filmes, o cara é louco), mas esse sempre impressiona. Começa como uma comédia romântica inofensiva que logo de tá uma rasteira tão forte que causa dor de cabeça e espasmos físicos. Insuperável.
2001 – Fantasmas de Marte, John Carpenter
O melhor faroeste da década. Mesmo com todos os defeitos que o filme certamente tem, a começar pelo vilão que parece o Marilyn Manson bombado. Mas é um puta filme: frenético, caótico, violento; em nenhum momento perde a atmosfera de anarquia que permeia os melhores do Carpenter. E é deliciosamente amoral: os caras maus aqui, não se engane, são os humanos. Carpenter filma muito, mas o que impressiona mesmo é a coragem desse velhinho maravilhoso: não consigo pensar em ninguém que conseguiria assumir um projeto tão suicida com um décimo da firmeza, do foco e da cara de pau. Isso aqui é um milagre em forma de filme. Apesar disso, recomendo para muito pouca gente.
2002 – A Última Noite, Spike Lee
Meu Spike Lee favorito: a história certa situada no contexto exato, com grandes performances de gente como Edward Norton, Rosario Dawson, Brian Cox, Philip S. Hoffman e Barry Pepper (gênio). Único filme decente sobre o 11 de Setembro. Não tem como não ver aquele final e não chorar.
2002 – Minority Report, Steven Spielberg
Curto demais muita coisa do Spielberg nessa década – Guerra dos Mundos e Munique em particular -, mas por esse aqui guardo mais carinho. Spielberg filma uma bela história do Philip K. Dick com visível tesão – as cenas de ação são maravilhosas. É claro que, dada a paternidade da obra, o final é uma merda otimista e trai o clima de 95% do filme, mas até lá é coisa de gênio.
2003 – Sobre Meninos e Lobos, Clint Eastwood
Clint amargo e pessimista: bom demais. Enquanto todo mundo delira com o Sean Penn, minha atenção vai quase toda para o Kevin Bacon, fenomenal, minimalista. E pro Tim Robbins, que é que fica com todo o real trabalho sujo de carregar o fardo emocional do filme, mas sem o privilégio de poder estourar e ser contido por dezenas de policiais etc.
2003 – Alta Tensão, Alexandre Aja
Um dos melhores exemplares do “novo horror”, certamente um dos mais tensos (dã), violentos e ultrajantes – principalmente o final duríssimo de engolir, mas que não me ofende demais não. Quando o vilão arranca a cabeça de uma vítima com uma CÔMODA eu sorrio de orelha a orelha.
2004 - Kill Bill: Vol. 2, Quentin Tarantino
A preferência pela parte 2 deve tudo à parte 1. Adoro como a fúria oriental do primeiro filme é bruscamente trocada por reflexões em paisagens de faroeste, melodias de Morricone e improváveis discussões conjugais. Dito isso, é bem possível que Bastardos Inglórios roube o posto, é preciso rever.
2004 – The Life Aquatic with Steve Zissou, Wes Anderson
Não vi ainda Mr. Fox, o qual suspeito que possa substituir esse na lista, mas Zissou me ganha pela bagunça, pela idiossincrasia descarada do Wes Anderson, pela simpática trilha, pelo Bill Murray no auge.
2004 – Colateral, Michael Mann
Meu thriller de cabeceira dos anos 00: brutal, soturno, esperto, inclemente. Michael Mann pode ter filmado melhor em Miami Vice ou Inimigos Públicos (o tiroteio da floresta é impressionante), mas isso aqui é uma delícia o tempo todo, um bloco sólido de delírio cinematográfico, cinema de gênero com muita classe.
2005 - O Virgem de 40 Anos, Judd Apatow
Ganha de O Âncora e Eu, Eu Mesmo e Irene por pequena margem. Há muito o que se gostar aqui, como o elenco absolutamente genial ou a adorável brodagem dos personagens. Das comédias sexuais americanas, é talvez a única que inverta a abordagem: em vez de pegar seus personagens em estado de ebulição sexual e aos poucos reprimi-los (ex.: Porky’s, que detesto), o filme faz o contrário e advoga a liberação, com exceção do final quase inexplicável (a cena do sexo, não a maravilhosa dancinha dos créditos).
2005 – King Kong, Peter Jackson
Senhor dos Anéis é divertido e tal, mas é aqui que Peter Jackson colocou diversão MESMO, toda que pôde imaginar. Possivelmente o grande filme de aventura da década. É ingênuo e sombrio, com um tipo de violência que frequentemente ultrapassa o limite do clima de matinê do conjunto. Já vi algumas vezes (todas as três horas!) e ainda não consigo entender o motivo de ser tão pouco querido e lembrado.
2005 – Rejeitados Pelo Diabo, Rob Zombie
Rob Zombie se supera nesse horror setentista na estética e incômodo no tema, com sua empatia com uma família de psicopatas sendo perseguida por um xerife ainda mais psicopata que eles. É humanismo puro: Zombie descarta a tese, na qual muita gente gosta de acreditar, de que assassinos e psicopatas em geral não são “humanos”. Resposta: são sim, deixe de frescura e não se sinta tão limpo e bonito por dentro.
2006 – O Labirinto do Fauno, Guillermo Del Toro
Del Toro sabe filmar pesadelos como ninguém, e aqui vai muito fundo. Mais do que a criatividade na criação dos monstros e sets (lindos, lindos), gosto muito do fato de que o horror mais ameaçador do filme é humano. Nem o bicho com olho na palma da mão é tão horrendo como a figura do militar.
2006 – Possuídos, William Friedkin
Paranoia elevada ao status de arte. Sou tiete do Friedkin (curto demais até mesmo o Caçado, pouco considerado por aí), mas aqui ele filma num nível tão acima da média que acho um crime a falta de atenção para com o filme. UM CRIME. Ashley Judd e Michael Shannon brilhantes.
2006 – O Hospedeiro, Bong Joon-ho
Categorizar esse como “filme de monstro” é só o começo da conversa: é comédia, sátira política, melodrama familiar, tudo num conjunto tão bem acabado que chega a ser inacreditável. E ainda considere que isso aqui é o mainstream sul-coreano! Esse Bong Joon-ho já havia provado que é mestre com o Memories of Murder (filme análogo a Zodíaco, só que ainda melhor e feito com quatro anos de antecedência), e esse seu Mother, que ainda não vi, é provavelmente ainda melhor que ambos. É preciso ASSINAR O RSS desse cara.
2007 – King of Kong, Seth Gordon
Devem haver algumas dezenas de documentários mais relevantes que esse, mas o duelo do nerd Steve Wiebe contra o douche Billy Mitchell bate qualquer recorde de cenas patéticas e maravilhosas. Dizem que a edição falseia vários aspectos da história real, mas como cinema isso aqui funciona bem demais.
2007 – Sangue Negro, Paul Thomas Anderson
Revi há poucos dias, e as sensações físicas foram quase as mesmas da primeira sessão: perda de fôlego, fraqueza física, baba no canto da boca. Filme que te pega pelo braço e não solta. Gosto cada vez mais do final absurdo e brusco. Day Lewis atua tanto que quase – quase – cansa.
2008 – Deixa Ela Entrar, Tomas Alfredson
Raridade: filme de horror com grande ideia e grande história, conduzido com foco e elegância, sem pressa, sem histeria (leia-se desejo incontrolável de jogar sangue na lente o mais rápido possível). Precisa ser mais visto e mais revisto. Remake atroz está a caminho e deve ressaltar essa necessidade.
2009 – Arrasta-me Para o Inferno, Sam Raimi
É o Sam Raimi que a galera ama: frenético e demente, mas sempre no mais absoluto controle de câmera & narrativa. Filme “menor” que engole o caríssimo Homem Aranha 3, por exemplo, em todos os aspectos que interessam (diversão, acabamento etc). E é daqueles que vi gargalhando sem pudor. Se tivesse um filme assim por ano, o mundo seria muito mais feliz.
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11 comentários Postar um comentário ou enviar um trackback.
Fascinante.
Lista genial e concordo com diversos pontos, mas sempre existem aqueles filmes que vc acredita que faltou e, como a lista não é nossa, não temos o que fazer.
Só acho que Oldboy é um filme que merece eterno destaque. Obra-prima do começo ao fim.
ABS.
Que merda. Vi pouca coisa aí. Mas pela “sinceridade”, deu vontade de assistí-los todos, inclusive revendo os já vistos.
Boa.
Bela lista!
Já coloquei pra baixar o Alta Tensão e o Possuídos, que não conheço.
No Country for Old Men você não curte o suficiente, ou não colocou pra não repetir diretor?
Senti falta – sim, eu sei, o esquema é pessoal e tudo mais, mas senti falta mesmo assim :) – de Oldboy. E de algo do Miyazaki (pra mim o dele dos anos 00 seria Chihiro).
American Splendor você viu?
Grande lista. Forte abs a todos os envolvidos, certeza.
WES ANDERSON REINA SUPREMO
Guillermo Del Toro manda abraços.
quando vi que na primeira linha (nao sei se é por ordem de preferencia, mas mesmo assim…) Esse filme dos irmao coen, meu sorriso de orelha a orelha abriu na hora.
Esse filme mudou a minha vida, descobri muuuito sobre bluegrass (que é o estilo da “I am a Man of Constant Sorrow – do Dan Tyminski), assim soube mais sobre variações da musica tradicional Irlandesa que é uma das minhas prediletas.
Esse filme é fantastico, desde o castin até a trilha sonora.. tudo tudo tdo… adoooro
Parabéns pelo “King of Kong”, vejo poucos comentando esse grande documentário irrelevante no quesito social quase que inerente ao gênero, porém que conta uma história que até poderia ser banal, mas é tão bem contada que fascina.
Só não dá para perdoar ter lembrado da Coreia do Sul com Bong Joon-ho
e esquecido de Kim Ki-duk (este execrou publicamente o Joon-ho até cansar por lá), que é um verdadeiro gênio desta década, falo sem pudor.
Fora isso, “Sangue Negro” está nos meus melhores da década também, creio.
sensacional. spielberg anos 00 é bão demais.
senti falta foi de zoolander, que deu tom à toda a década e é hoje a marca indiscutível dos anos bush. ou é impressão minha?
e dos nacionais, hein? cidadedeus, tropadelite? saneamento básico (esse é bão demais)?
vai ser foda organizar as listas da década esse ano.
anyway, vários daí estarão lá, como AUDITION. E do miike recomendo fortemente VISITOR Q. Acha facinho nos torrents da vida. É um drama familiar de humor negro incrivelmente grotesco, doentio e com um final incrivelmente moralista.