generico

Um disco: ‘Death of Cool’

Daniel Lima

Duas coisas me fazem voltar sempre a esse álbum do Kitchens of Distinction: o delírio das guitarras e as composições de partir o coração. Devo ter começado a ouvir intrigado pelo nome da banda, provavelmente tirado de algum catálogo de compras. Foi uma grande surpresa. É rock quase assobiável, melódico e preciso, mas revestido por um mil-folhas elétrico que intriga e confunde. É o paradoxo do pop que precisa de algumas audições pra ser compreendido. Impacto mais imediato é causado pelas letras. Frases saltam ao ouvido e grudam, geralmente com provocações que parecem fazer sentido mesmo sem seu contexto: “Where’s the ache of freedom? Where’s the devil’s whispers?”. “Is that all there is?” O disco é cheio desses momentos. E “Mad as Snow” é, talvez, o auge disso tudo, com suas longas viagens instrumentais comprimindo efeitos, feedback e melodia.

Informação

Daniel Lima

A beleza de Man vs Wild é a celebração da informação de qualidade. O evidente exagero nas manobras de sobrevivência de Bear Grylls, ironizadas num preciso meme, são apenas a parcela mais chamativa de um programa construído em torno da crença de que, em qualquer terreno ou clima, a avaliação correta e bem informada dos riscos e oportunidades à sua volta é necessária e suficiente pra a vitória. Apenas a força de um briefing bem feito levaria um cidadão a vasculhar as tripas da carcaça de um camelo para encontrar água limpa num órgão cujo nome obviamente não lembro. Ou, num outro deserto, ao antecipar a escassez de água, matar uma cobra, arrancar sua cabeça, mijar em seu interior e dar um nó na ponta do bicho morto, fazendo assim o cantil mais nojento para o conteúdo mais infame possível – um exemplo glorioso do que significa um bom planejamento. É preciso saber onde pisar, o que comer, o que descartar, o que adaptar, o que improvisar e quando desistir.

Levon

Daniel Lima

Levon Helm era o moleque que dava cavalo de pau com o trator da fazenda de algodão do pai, passou centenas de noites tocando em botecos no interior americano e canadense (e isso antes de completar 18 anos), largou o cargo de baterista do Bob Dylan pra buscar paz e foi parar numa plataforma de petróleo antes de finalmente voltar à música e gravar, por exemplo, “The Night They Drove Dixie Down” e “Rag Mama Rag“.

Na Banda, começou como líder e terminou encurralado por manobras jurídicas de Robbie Robertson, o guitarrista gênio e vacilão, mas no abençoado período entre uma ponta e outra dessa história ele ajudou a criar, manter e justificar a ideia de uma banda genuinamente colaborativa e livre, sem hierarquia, sem cantor principal, sem frontman. Queriam até deixá-la sem nome, mas a tentativa de ser simplesmente uma banda tornou-os A Banda, não teve jeito.

Conseguia o aparente milagre de ser um baterista de mão pesadíssima e toque sutil, martelando viradas chorosas em “Tears of Rage” e causando perplexidade logo na primeira faixa do primeiro disco do grupo, que surgia rebelando-se contra a rebeldia gratuita.

E cantava também, o sotaque sulista evidente e orgulhoso. Apesar do tormento imposto por Robertson e Martin Scorsese aos integrantes da Banda na produção do “Last Waltz”, a interpretação de Levon em “The Night They Drove Dixie Down” é um dos momentos mais impressionantes e empolgantes da história do rock, síntese perfeita da habilidade do grupo e, principalmente, da mistura de vigor físico e musicalidade sobrenatural do Levon Helm, um dos meu poucos heróis pessoais.

Sherlock

Daniel Lima

Sugestão de série: Sherlock. É produção recente, britânica, muito bem escrita & dirigida e não tem nada a ver com o Guy Ritchie (guardei o melhor para o final). Adapta personagens e histórias de Arthur Conan Doyle para tempos atuais (Holmes tem um site autopromocional; Watson tem um blog) e não é 100% “fiel”, no sentido de que não usa os livros como uma bíblia a ser seguida e reproduzida, mas sim uma fonte de ideias. É excelente.

Benedict Cumberbatch está ótimo no papel de Sherlock, e o Dr. Watson de Martin Freeman é adorável. Conseguiram algo que considero difícil hoje em dia: evitam, na medida do possível, comparações com House. Declaradamente um subproduto de Sherlock Holmes, a existência e sucesso de House eram riscos evidentes para esse projeto, já que a ambientação moderna e a própria arrogância do personagem poderiam causar efeito inverso: o produto “original” ser acusado de plágio de seu “derivado”. Não é o caso. O Sherlock Holmes aqui não precisa de traumas físicos ou emocionais pra ser meio escroto: ele é assim simplesmente porque não tem paciência para acompanhar o raciocínio lento de todas as outras pessoas; ele está em outra frequência mental. É bastante divertido.

Um aviso sobre o formato da série: a primeira temporada tem… três episódios. Mas cada um tem uma hora e meia de duração. A segunda temporada deve ser exibida no 3º trimestre deste ano, no mesmo esquema. Estou ansioso.

3 perdas musicais precoces

Daniel Lima

Gostava, mesmo que sem tanto entusiasmo, de Amy Winehouse. Toda a conversa da “maldição dos 27″ pode até ser curiosa e tal, mas tenho outros nomes em mente quando penso em perdas musicais precoces – gente cujo talento imenso deixa a gente se perguntando, sem resposta, sobre os caminhos que tomariam caso vivessem e produzissem por mais algumas décadas. Eis aqui um ranking pessoal, só com músicos que morreram antes dos 30 anos.

 

3. Gram Parsons
Mestre country de primeira grandeza. Diferente dos outros dois nomes da lista, deixou obra até que razoável em quantidade: um álbum no Byrds, dois com o Flying Burrito Brothers e dois clássicos irrepreensíveis como artista solo, GP e Grievous Angel. Fazia um som ao mesmo tempo puro e moderno, com canções capazes de prospectar sua alma como uma broca da Petrobras. Ouvir $ 1.000 Wedding sem se emocionar é um atestado de óbito moral. Morreu aos 26 anos, num quarto de hotel, depois de se encharcar em álcool e morfina.

$ 1.000 Wedding | Still Feeling Blue | Wheels

 

 

2. Duane Allman
Talvez a única ameaça real ao reinado de Jimi Hendrix. Branquelo, sulista e constantemente drogado (acima da elevada média da época), manjava tudo de blues e improvisava como poucos. Para se ter uma ideia do poder de fogo do rapaz, há duas ótimas amostras disponíveis: o álbum ao vivo Live at Fillmore East, de sua banda fraternal, o Allman Brothers – não é um disco comum de uma banda de southern rock…; e o clássico do Derek and the Dominoes, Layla and Other Assorted Love Songs. Depois de ouvir o solo de Allman no final da versão de Wilson Pickett para Hey Jude, Eric Clapton saiu de forma desesperada à caça de Allman. Arrastou-o para o estúdio e, como resultado, fizeram um dos maiores discos de guitarreira da história do rock, e com certa vantagem para Allman. Para ouvir a diferença: Clapton toca Fender; Allman, Gibson – e muito slide. Morreu antes de completar 25 anos, acidente de moto.

Statesboro Blues (c/ Allman Brothers Band) | Hey Jude (c/ Wilson Pickett) | Any Day (Derek and the Dominos)

 

1. Nick Drake
Era um enigma em forma de gente, críptico até mesmo para a família e amigos próximos (até onde era possível). Mal lançou o primeiro disco e decidiu evitar ao máximo as performances ao vivo. Entocou-se numa casinha no campo com seus baseados, discos, antidepressivos e sinais iniciais de psicose. O terceiro álbum, Pink Moon, é um dos discos mais assombrosos já lançados. Morreu aos 26. Tinha problemas psicológicos graves, e pensar no que seria sua vida parece ser, necessariamente, imaginar a trajetória de alguém que de alguma forma tivesse superado doenças mentais e sofrimentos emocionais imensos. Como sua obra teria sido afetada por essa evolução? Meu palpite, 100% fantasioso, é que permaneceria recluso e lançaria discos em longos intervalos, invariavelmente surpreendendo a todos com os resultados. Gostaria de ouvir esses discos.

Northern Sky | Fruit Tree | Things Behind the Sun

Hotel Overlook, labirinto transmorfo

Daniel Lima

É notório: o Hotel Overlook em O Iluminado, filme do Stanley Kubrick, é um personagem importante, com seus corredores vazios, decoração opressiva e ares de labirinto. O que não se sabia tão claramente é que o design dos cenários no filme contém inconsistências espaciais muito estranhas – portas que não poderiam dar em lugar algum, janelas impossíveis, áreas sem qualquer conexão com outras partes do hotel… Com base em mapas feitos a partir de cenas do filme e em plantas de produção, um inglês chamado Rob Ager passou a limpo, em vídeo, as incongruências do set — algumas até impressionantemente óbvias, depois que ele as esfrega na nossa cara. As análises vão aí embaixo, em duas partes. São sensacionais.

A impressão que tive, não conseguindo escapar da mentalidade de tiete: Kubrick era gênio com folga e deve ter pensado em coisas que você e eu ainda vamos demorar anos pra notar em seus filmes.

Breaking Bad s04e01: “Box Cutter”

Daniel Lima

Os colegas do Churrasco na Laje antigamente prestavam importante serviço público: a cada episódio de Breaking Bad, criavam um post e liberavam os comentários pra gente se dizer estupefato com o rumo dos acontecimentos e jurar amor eterno e servidão ao criador da série, Vince Gilligan. Como o blog dos caras tá aparentemente morto e essa vibe não pode acabar nunca, resolvi puxar o fórum pra cá e ver o que acontece. Depois desse começo de temporada, assunto não deve faltar.

Então já sabem: nos comentários do post, ♠SPOILERS♠ tão liberados.

“In the evening”

Daniel Lima

(…)

Nothing in the clip is classic, the band is on its last legs, and no part of the performance would be included among the 500 greatest moments in Zeppelin’s history. But watch it again. Watch it 10 times. When is the last time you went to a concert and something like this actually happened, despite the groups overt efforts to make it so? When is the last time you watched a band play this well, for this long, without even trying? How often are you able to see the very premise of rock music, produced on the largest possible scale, as an act of utter normalcy? How many bands aspire to this alleged mediocrity and totally fail?

This is Led Zeppelin when they sucked. And wouldn’t it be wonderful if all things were this bad?

Chuck Klosterman disseca uma apresentação qualquer do Led Zeppelin.

A moralidade em “Breaking Bad”

Daniel Lima

“I’m pretty much agnostic at this point in my life. But I find atheism just as hard to get my head around as I find fundamental Christianity. Because if there is no such thing as cosmic justice, what is the point of being good? That’s the one thing that no one has ever explained to me. Why shouldn’t I go rob a bank, especially if I’m smart enough to get away with it? What’s stopping me?” – Vince Gilligan, criador da série Breaking Bad

Ótima reportagem do New York Times sobre a volta do melhor seriado da atualidade. Vai ser foda.

Mas eu só queria um burguer

Daniel Lima

Guarde para ver quando as batatas estiverem assando: Nathan Myhrvold fala sobre os processos e descobertas culinárias que transformaram-se no petardo Modernist Cuisine, uma anomalia editorial sob qualquer ponto de vista. São seis volumes, ou 2.500 páginas, em que toda a nerdice evidente em Myhrvold é obstinadamente direcionada à redefinição dos limites do conhecimento sobre a física e a química do preparo de alimentos. O vídeo, de quase uma hora, é uma palestra em que Myhrvold, de forma empolgada e aleatória, fala sobre experimentos absurdos, fotografias em corte lateral, pipocas estourando em câmera hiper-lenta e outras coisas legais. É muito bom.

As fotos são muito impressionantes

Os seis volumes custavam US$ 625 e esgotaram na pré-venda. Deve ser visualmente espetacular, delirante, obssessivo e ilegível.

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