cinema

20 preferidos dos anos 2000

Fui pensando no assunto devagar, puxando pela memória um e outro, e acabei chegando a uma compilação decente. Percebam que não são, sob qualquer aspecto, os melhores da década, apenas aqueles de que mais gostei de ver entre os que de fato vi – e vi, obviamente, apenas pequena parcela do que poderia ter visto. Algumas escolhas são idiossincrasia pura, geralmente orientadas por afeto e até pelo gosto por certos defeitos desses filmes. Defeitos charmosos, aquela coisa. Pode haver omissões graves aí, mas não tem carinho declarado em vão.

obrother2000 – Ei, Meu Irmão, Cadê Você?, Ethan e Joen Coen
Algo nesse filme me faz sorrir o tempo todo. Os Coen acertaram muito na década, mas este sempre sobressai na memória. O sotaque caipira, os diálogos rápidos, a música como elemento da trama, a jornada nonsense: é muita coisa pra delirar.

2000 – Audition, Takashi Miike
Vi muito pouco, quase nada da obra do Miike (são algumas dezenas de filmes, o cara é louco), mas esse sempre impressiona. Começa como uma comédia romântica inofensiva que logo de tá uma rasteira tão forte que causa dor de cabeça e espasmos físicos. Insuperável.

2001 – Fantasmas de Marte, John Carpenter
O melhor faroeste da década. Mesmo com todos os defeitos que o filme certamente tem, a começar pelo vilão que parece o Marilyn Manson bombado. Mas é um puta filme: frenético, caótico, violento; em nenhum momento perde a atmosfera de anarquia que permeia os melhores do Carpenter. E é deliciosamente amoral: os caras maus aqui, não se engane, são os humanos. Carpenter filma muito, mas o que impressiona mesmo é a coragem desse velhinho maravilhoso: não consigo pensar em ninguém que conseguiria assumir um projeto tão suicida com um décimo da firmeza, do foco e da cara de pau. Isso aqui é um milagre em forma de filme. Apesar disso, recomendo para muito pouca gente.

2002 – A Última Noite, Spike Lee
Meu Spike Lee favorito: a história certa situada no contexto exato, com grandes performances de gente como Edward Norton, Rosario Dawson, Brian Cox, Philip S. Hoffman e Barry Pepper (gênio). Único filme decente sobre o 11 de Setembro. Não tem como não ver aquele final e não chorar.

minority2002 – Minority Report, Steven Spielberg
Curto demais muita coisa do Spielberg nessa década – Guerra dos Mundos e Munique em particular -, mas por esse aqui guardo mais carinho. Spielberg filma uma bela história do Philip K. Dick com visível tesão – as cenas de ação são maravilhosas. É claro que, dada a paternidade da obra, o final é uma merda otimista e trai o clima de 95% do filme, mas até lá é coisa de gênio.

2003 – Sobre Meninos e Lobos, Clint Eastwood
Clint amargo e pessimista: bom demais. Enquanto todo mundo delira com o Sean Penn, minha atenção vai quase toda para o Kevin Bacon, fenomenal, minimalista. E pro Tim Robbins, que é que fica com todo o real trabalho sujo de carregar o fardo emocional do filme, mas sem o privilégio de poder estourar e ser contido por dezenas de policiais etc.

2003 – Alta Tensão, Alexandre Aja
Um dos melhores exemplares do “novo horror”, certamente um dos mais tensos (dã), violentos e ultrajantes – principalmente o final duríssimo de engolir, mas que não me ofende demais não. Quando o vilão arranca a cabeça de uma vítima com uma CÔMODA eu sorrio de orelha a orelha.

2004 - Kill Bill: Vol. 2, Quentin Tarantino
A preferência pela parte 2 deve tudo à parte 1. Adoro como a fúria oriental do primeiro filme é bruscamente trocada por reflexões em paisagens de faroeste, melodias de Morricone e improváveis discussões conjugais. Dito isso, é bem possível que Bastardos Inglórios roube o posto, é preciso rever.

zissou2004 – The Life Aquatic with Steve Zissou, Wes Anderson
Não vi ainda Mr. Fox, o qual suspeito que possa substituir esse na lista, mas Zissou me ganha pela bagunça, pela idiossincrasia descarada do Wes Anderson, pela simpática trilha, pelo Bill Murray no auge.

2004 – Colateral, Michael Mann
Meu thriller de cabeceira dos anos 00: brutal, soturno, esperto, inclemente. Michael Mann pode ter filmado melhor em Miami Vice ou Inimigos Públicos (o tiroteio da floresta é impressionante), mas isso aqui é uma delícia o tempo todo, um bloco sólido de delírio cinematográfico, cinema de gênero com muita classe.

2005 - O Virgem de 40 Anos, Judd Apatow
Ganha de O Âncora e Eu, Eu Mesmo e Irene por pequena margem. Há muito o que se gostar aqui, como o elenco absolutamente genial ou a adorável brodagem dos personagens. Das comédias sexuais americanas, é talvez a única que inverta a abordagem: em vez de pegar seus personagens em estado de ebulição sexual e aos poucos reprimi-los (ex.: Porky’s, que detesto), o filme faz o contrário e advoga a liberação, com exceção do final quase inexplicável (a cena do sexo, não a maravilhosa dancinha dos créditos).

2005 – King Kong, Peter Jackson
Senhor dos Anéis é divertido e tal, mas é aqui que Peter Jackson colocou diversão MESMO, toda que pôde imaginar. Possivelmente o grande filme de aventura da década. É ingênuo e sombrio, com um tipo de violência que frequentemente ultrapassa o limite do clima de matinê do conjunto. Já vi algumas vezes (todas as três horas!) e ainda não consigo entender o motivo de ser tão pouco querido e lembrado.

devils2005 – Rejeitados Pelo Diabo, Rob Zombie
Rob Zombie se supera nesse horror setentista na estética e incômodo no tema, com sua empatia com uma família de psicopatas sendo perseguida por um xerife ainda mais psicopata que eles. É humanismo puro: Zombie descarta a tese, na qual muita gente gosta de acreditar, de que assassinos e psicopatas em geral não são “humanos”. Resposta: são sim, deixe de frescura e não se sinta tão limpo e bonito por dentro.

2006 – O Labirinto do Fauno, Guillermo Del Toro
Del Toro sabe filmar pesadelos como ninguém, e aqui vai muito fundo. Mais do que a criatividade na criação dos monstros e sets (lindos, lindos), gosto muito do fato de que o horror mais ameaçador do filme é humano. Nem o bicho com olho na palma da mão é tão horrendo como a figura do militar.

2006 – Possuídos, William Friedkin
Paranoia elevada ao status de arte. Sou tiete do Friedkin (curto demais até mesmo o Caçado, pouco considerado por aí), mas aqui ele filma num nível tão acima da média que acho um crime a falta de atenção para com o filme. UM CRIME. Ashley Judd e Michael Shannon brilhantes.

host2006 – O Hospedeiro, Bong Joon-ho
Categorizar esse como “filme de monstro” é só o começo da conversa: é comédia, sátira política, melodrama familiar, tudo num conjunto tão bem acabado que chega a ser inacreditável. E ainda considere que isso aqui é o mainstream sul-coreano! Esse Bong Joon-ho já havia provado que é mestre com o Memories of Murder (filme análogo a Zodíaco, só que ainda melhor e feito com quatro anos de antecedência), e esse seu Mother, que ainda não vi, é provavelmente ainda melhor que ambos. É preciso ASSINAR O RSS desse cara.

2007 – King of Kong, Seth Gordon
Devem haver algumas dezenas de documentários mais relevantes que esse, mas o duelo do nerd Steve Wiebe contra o douche Billy Mitchell bate qualquer recorde de cenas patéticas e maravilhosas. Dizem que a edição falseia vários aspectos da história real, mas como cinema isso aqui funciona bem demais.

2007 – Sangue Negro, Paul Thomas Anderson
Revi há poucos dias, e as sensações físicas foram quase as mesmas da primeira sessão: perda de fôlego, fraqueza física, baba no canto da boca. Filme que te pega pelo braço e não solta. Gosto cada vez mais do final absurdo e brusco. Day Lewis atua tanto que quase – quase – cansa.

2008 – Deixa Ela Entrar, Tomas Alfredson
Raridade: filme de horror com grande ideia e grande história, conduzido com foco e elegância, sem pressa, sem histeria (leia-se desejo incontrolável de jogar sangue na lente o mais rápido possível). Precisa ser mais visto e mais revisto. Remake atroz está a caminho e deve ressaltar essa necessidade.

2009 – Arrasta-me Para o Inferno, Sam Raimi
É o Sam Raimi que a galera ama: frenético e demente, mas sempre no mais absoluto controle de câmera & narrativa. Filme “menor” que engole o caríssimo Homem Aranha 3, por exemplo, em todos os aspectos que interessam (diversão, acabamento etc). E é daqueles que vi gargalhando sem pudor. Se tivesse um filme assim por ano, o mundo seria muito mais feliz.

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música

o preferido dos anos 00

Escrevi isso no início de 2008 para algum outro lugar e acabei não publicando. Relendo, percebi que estava falando sobre meu álbum preferido na década. É uma boa hora para publicar.

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Ouvi Wilco pela primeira vez em Yankee Hotel Foxtrot, mas o barato só bateu com A Ghost is Born. Mais precisamente, com Spiders.

É curioso que tudo parta da faixa mais estranha da discografia da banda. São 11 minutos de uma batida circular, inspirada no krautrock, pontuada por versos incompreensíveis e guitarras retorcidas e pontudas. Uma seção instumental de rock de arena faz as vezes de refrão, e logo se esvai.

O disco inteiro se presta a essas fusões e metamorfoses. Abre com At Least That’s What You Said, um lamento ao pé do ouvido, quase inaudível, que desemboca numa fúria de solos de guitarra de deixar Neil Young com priapismo. Em Hell is Chrome, o tema do rockstar atormentado vira uma calma e resignada auto-entrega para o abismo da ordem e da contenção. O que era pra ser de um jeito acaba se transformando, sempre.

Por trás da maioria das faixas, o tema da identidade se repete. A pergunta sobre quem se é e quem querem que sejamos vai e vem, direta ou sugerida, enunciada ou orquestrada. A música acompanha. Poucos discos trazem transições instrumentais e melódicas tão geniais quanto este. Muzzle of Bees, Theologians, quase todas as músicas se expandem e se retraem como organismos vivos. Jeff Tweedy nunca tocou guitarra tão bem.

E há o lance dos ruídos também. Aí vale uma contextualização.

Tweedy, líder e principal compositor do grupo, sofre de síndrome do pânico e enxaqueca crônica. Na época de produção do álbum, as crises se agravaram e ele se viu obrigado a internar-se numa clínica para cuidar não só dessas doenças, mas também do vício em analgésicos decorrente delas. O disco tem reflexo disso. Mais do que a anedótica reprodução da dor de cabeça por meio de microfonias intermináveis, acaba sendo uma demonstração de entrega artística. A forma que Tweedy achou de lidar com esses problemas foi incluí-los palpavelmente no seu trabalho. Por ser tão emocional e pessoal, é provavelmente o disco mais difícil do Wilco. Não no sentido do experimentalismo do Yankee Hotel Foxtrot, geralmente eleito neste posto, mas porque as músicas relacionam-se entre si e se transformam sem concessões, para além dos próprios limites. Clássico absoluto.

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cinema

você precisa ver (mais) filmes de horror

Texto originalmente publicado no especial de Halloween do site Colherada Cultural.

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Entre os cinéfilos, há um gênero que atrai carinho consideravelmente maior que os demais: o horror. É uma preferência que pode ser medida pelo nível de especialização de vários festivais espalhados pelo mundo, como o Fantastic Fest, no Texas, e o Fantasporto, em Portugal, ou as publicações temáticas e notavelmente longevas, como a “Fangoria”, em circulação desde 1979, e a “Famous Monsters of Filmland”, desde 1958. Ou basta discutir o tema com o amigo fascinado por filmes sangrentos e obscuros da década de 1970. O brilho no olhar diz muito. Há motivo.

A diferença do horror para os demais gêneros é relativamente simples de ser explicada: a imensa maioria é composta por obras de orçamentos paupérrimos, produzidas sem expectativa de sucesso comercial ou aprovação da crítica “séria”. O grande público, e a crítica que lhe serve, presta, em geral, pouca ou nenhuma atenção a essa produção gigantesca. E essa “maldição”, digamos (para efeitos irônicos), é boa parte da força desses filmes: desobrigados das amarras da necessidade de agradar, seus realizadores percorrem território vasto e livre, fora do alcance de convenções sociais, noções de politicamente correto e até mesmo do que se é normalmente considerado de “bom gosto”. É uma belíssima condição para a criação de… arte. E do tipo raro, com pouca ou nenhuma concessão.

Nesse ponto da conversa, caso seu objetivo secreto fosse a validação do horror como um gênero respeitável junto a seus pares nas prateleiras das locadoras, nomes mágicos poderiam ser citados habilmente, como o “O Bebê de Rosemary” (1968) de Polanski , o “Nosferatu” (1922) de Murnau ou o “Psicose” (1960) de Hitchcock, na construção de uma defesa do gênero pelo fato de que ele também “acrescenta”, “faz pensar”, “discute temas importantes” ou alguma outra baboseira utilitarista.

Eis minha tese: o cinema de horror fascina tanto pois ele lida mais intensamente, e sem censuras, com a própria essência do cinema, que é de emocionar e provocar o público pela inclemente combinação de imagem e som em movimento. Sabendo disso, diretores talentosos percebem a vastidão do playground de que dispõem e se deleitam criando obras ousadas e arriscadas, seja na forma ou no conteúdo.

Evidente que surge muita coisa ruim no caminho. É o resultado natural desse tipo de liberdade, que chega a fazer parecer simples a construção de um filme de horror — como se bastasse colocar malucos mascarados degolando virgens numa floresta etc.

Não é simples, mas é um gênero que premia a ousadia. Dois exemplos notórios são Sam Raimi e Peter Jackson, diretores de duas das franquias mais rentáveis da história do cinema (“Homem-Aranha” e “O Senhor dos Anéis”, respectivamente) e que começaram dirigindo pequenos filmes de orçamento baixíssimo e nível de gore (sangue e vísceras à mostra), violência e humor incomparáveis até hoje — Raimi com a série “Evil Dead” (o primeiro é de 1981), Jackson com comédias de pastelão-gore como “Fome Animal” (1992) e “Bad Taste” (1987). Os efeitos visuais dos blockbusters de ambos, contudo, são claramente visíveis nesses primeiros filmes, experimentais até o osso exposto. É uma escola completa.

Outro exemplo é o “Halloween” (1978), de John Carpenter, que criou o gênero de “assassino mascarado” com um filme baratíssimo para qualquer época, US$ 320 mil, mas que, diferente de suas inúmeras cópias surgidas ao longo dos anos, lida pouco com sangue e muito mais com a hábil manipulação via montagem e som para assustar. Puro artesanato audiovisual.

No fim das contas, o bom cinema de horror oferece isso: inventividade, ousadia e domínio formal. Seus cineastas são, geralmente, cinéfilos tão ou mais radicais que a própria plateia, e sabem muito de cinema. São artesãos de todos os lugares: italianos como Dario Argento, Lucio Fulci e Mario Bava, japoneses como Takashi Miike, canadenses como David Cronenberg, franceses como Alexandre Aja. E surgem malucos a todo momento, como o sueco Tomas Alfredson e seu tratamento não-convencional sobre vampiros em “Deixa Ela Entrar” (2008), na contramão da onde de vampirismo clichê de “Crepúsculo” e similares.

O que falta ao horror, se é que isso seja fato desejável, é o mesmo tipo de passe livre que a comédia possui para existir como variação de si mesma, sem propósitos pretensamente nobres ou temáticas “intelectuais” como justificativa. A comédia pode ser julgada pelo seu efeito emocional direto — o riso. Ora, o objetivo do horror é provocar também uma reação emocional, mas de diferente ordem: o desconforto, o asco, o medo. Há nobreza e arte na tarefa.

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cinema

histeria reina

ac

Fico sinceramente feliz que um filme como Anticristo possa ser feito, e ainda mais radiante pela minha liberdade em poder vê-lo e experimentar uma longa sensação de anestesia cerebral, o mesmo tipo de tédio que me ocorre diante de crianças que esperneiam e esperneiam, em surtos de escândalo inegociável.

Qualquer tipo de filme anômalo é um alívio. Não importa procedência, intenção ou qualidade: é importante tê-los. São os picos ou depressões que distorcem a linha plana da mesmice – que também é importante: mesmice é o que movimenta dinheiro, mantém a constância no fluxo de caixa da indústria e gera a insatisfação ocasional que, com sorte, financia em paralelo materiais diferentes, pouco comuns.

Os filmes do Lars von Trier certamente não são comuns. Mas não são necessariamente bons. Anticristo, pro meu gosto, não é. Principalmente por sua crença tão profunda na própria capacidade de “provocar”. A metáfora do primeiro parágrafo permanece: von Trier parece uma criança esperneando, convencida de que sua tática pode ser repetida com sucesso, e ainda melhor se acrescida de novos truques envolvendo, quem sabe?, automutilação genital. Quem ignoraria tal show?

O problema não é a provocação, é a provocação ruim, vaga, contida em si mesma e sem correlação com nada coerente. Todo o pretenso simbolismo religioso e psicológico soa vigarista e em poucos momentos há a impressão de que algo de humano esteja sendo abordado. Como filme de horror, acaba sendo mais raso do que O Albergue ou Jogos Mortais, que pelo menos são consistentes em seu moralismo e opção pela mutilação como show estético.

Ao mesmo tempo, esse tipo de delírio egocêntrico parece fascinar por ser estranhamente direto em sua trapaça. É como se o filme inteiro fosse o MacGuffin para a história maior, de ode à auto-importância do autor genial e atormentado. O filme, em si, parece não interessar para von Trier. Não deveria importar para nós também.

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2000s, cinema

distrito b

district9

Talvez pela falta de imaginação da suposta categoria “A” do cinema ultimamente, há grande esforço e investimento em promover Distrito 9 de sua natureza “B” para a classe mais alta, que ganha atenção e olhares sérios, essa validação flácida que se costuma oferecer a filmes “que acrescentam”.

A credencial “A” deve tudo à trama de mão pesada que evoca o Apartheid, a redenção pelo tornar-se-o-outro, a metáfora da xenofobia e do racismo. É a tradicional premiação automática a temas considerados importantes, por um motivo ou outro – geralmente o acaso que elege a pedra da vez na roleta do politicamente correto.

Distrito 9 é um filme que merece, um dia, ser salvo da respeitabilidade que tentam lhe imputar – e que, provavelmente, sua seriedade excessiva incentiva. É um ótimo sci-fi: imaginativo, executado com paixão evidente, filmado com competência e muito criativo na maioria de suas soluções visuais (tirando o design nos ETs, bem fraco).

Ao mesmo tempo, é ingênuo e óbvio no desenvolvimento da trama, além de didático demais – didatismo camuflado no tratamento “documental” de parte do filme, ideia que funcionou melhor no trailer do que no produto acabado. E a ação no terceiro ato é boa, mas nada especialmente divertido.

O melhor mesmo é ver a estreia do Neill Blomkamp, bom diretor jovem e com as conexões certas (Peter Jackson, bicho!). Há potencial aí.

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podcast

chorumecast #6 – conheçam Mark Eitzel

eitzel

Na longa tradição de cantores e compositores atormentados por problemas psicológicos, amorosos e químicos, Mark Eitzel é um dos mais talentosos e pouco conhecidos. Com certa razão: à frente de sua banda, a American Music Club, gravou uma coleção de álbuns sombrios e introspectivos, alternando pesadelo, lamúria e fúria autodestrutiva em canções áridas e de pouco apelo comercial.

O tipo de coisa que você deveria ouvir.

Eitzel é uma mistura improvável de Jeff Tweedy, Elliott Smith, Leonard Cohen e Morrissey, com uma grande, grande voz e uma grande, grande monocelha. É daqueles infelizes que adoramos ver na merda, pois sua obra rende em relação diretamente proporcional à sua miséria emocional. E levando esse raciocínio sádico às últimas (in)consequências, é justo que fiquemos agradecidos pela existência da Aids, pois graças a ela e a sua eficácia que Eitzel, gay habitante de São Francisco, tenha escrito canções absolutamente maravilhosas em homenagem a amigos vítimas da doença, como Blue and Grey Shirt e Sick of Food.

Trata-se de uma discografia recheada de pérolas, mais do que seria razoável de empilhar num podcast, mas o Chorumecast assume o papel de cartão de visitas de Eitzel e seu American Music Club para os não familiarizados com seu trabalho. Recomenda-se ouvir à meia-luz, com um uísque na mão, recostado numa cadeira confortável.

  1. The Dance (2008)
  2. Nightwatchman (1987)
  3. Blue and Grey Shirt (1988)
  4. Johnny Mathis’ Feet (1993)
  5. The Sleeping Beauty (2008)
  6. Firefly (1988)
  7. Somewhere (1988)
  8. Sick of Food (1991)
  9. Go Away (1998)
  10. Western Sky (1988)
  11. Mom’s TV (1987)
  12. Gary’s Song (1987)
  13. Outside This Bar (1987)
  14. Decibels And The Little Pills (2008)
  15. Royal Cafe (1991)
  16. Sacred Heart (1996)

Foto: Elchicodelaleche

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música

você vai levando

Uma parábola rápida sobre a atitude rock ‘n roll.

Em novembro de 1976, a The Band (artigo seguido de artigo, eu sei, mas que diabos, é a THE BAND) faria seu show de despedida e Martin Scorsese é convidado para gravar tudo e transformar num documentário, que viria a se chamar The Last Waltz. Haveria convidados, uma lista relativamente longa deles, como Dylan, Van Morrison e Clapton. E Neil Young.

Ele sobe ao palco para tocar Helpless, um tanto pálido. A performance não é das melhores, a banda não acompanha corretamente a música de Young, os vocais ficam abaixo da média etc. Mas nada muito diferente das demais performances da noite, um tanto quanto irregulares.

Quando conferia o material filmado, Scorsese -- e todo mundo que assistiu ao material -- pôde ver claramente um PEDREGULHO DE COCA pendurado na narina esquerda de Young.

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Infográfico localiza região exata da concentração de pó em discussão. Arte/Interbarney

Ao ver a cena, o empresário de Young, Elliot Roberts, surtou. “Era enorme -- como um M&M branco. Se alguém pesasse, deveria ter uns 2 gramas”, relata, segundo consta da biografia do Neil Young, Shakey. Scorsese e Robbie Robertson, guitarrista da banda e produtor do filme, queriam deixar a cena intacta. “É perfeito, é rock ‘n roll, é a coisa de verdade”, argumentava Scorsese. Mas Roberts, o empresário, insistiu. Afinal, numa tela de cinema o grão se tornaria um grande meteoro de pó no nariz de seu cliente. A solução, que custou alguns milhares de dólares, foi remover a trolha branca com rotoscopia -- retoque manual frame a frame. “É a cocaína mais cara que já comprei”, lamentou Robertson. Por algum motivo, a cena surge sem adulterações na versão doméstica do filme.

E Young? Segurem o relato, mal traduzido da biografia dele:

É incrível que eu não tenha morrido depois desse show. As coisas que fizemos. Jesus Cristo. (…) Sou um péssimo drogado. Quando tomo drogas, tomo demais e fico todo fodido e fico um tempão sem tomar de novo. Drogas não têm um papel tão importante, na verdade. Mesmo. Elas estavam lá, muita gente se drogava, eu me drogava e houve noites em que me droguei demais e fui estúpido. Agora fico grato de estar aqui e perceber quão estúpido eu fui. Seria melhor estar aqui e me sentir esperto, mas, sabe, você vai levando.

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podcast

chorumecast #5 – somos todos Suplicy

suplicymerca

O cover é uma instituição da música, e dela uma modalidade quase exclusiva – o equivalente no cinema seriam os remakes, mas estes são proporcionalmente menos numerosos. Seja como remodelagem fiel ou como experimento de plástica sonora, o cover nunca é a expressão do descaso. Há um sentimento no perpetrador da versão, uma intenção que não cabe no peito, ou mesmo um desgosto irônico que insiste em se manifestar e quase se fazer passar por amor. Cover é emoção.

Nesse sentido, cabe ao senador Eduardo Suplicy a tarefa de ser um dos mais dedicados praticantes do cover no Brasil, sempre com propósito e empolgação. Elementos mais do que desejáveis num performer, seja qual for seu gênero de atuação. Suplicy nos inspira a cantar e a ouvir música com mais carinho.

Em homenagem a esse showman nato, o chorumecast da semana recolhe belos e pertinentes exemplos de versões que merecem audição atenta, seja pela qualidade – como a versão de Caetano para uma das mais belas canções dos Beatles – ou pelo inusitado – como o Tears for Fears transformado em folk pelo Samamidon. Curtam as surpresas abaixo.

Intro. Eduardo Suplicy – O Homem na Estrada (Racionais MCs)
1. Erasmo Carlos – Paralelas (Belchior)
2. Caetano Veloso – For No One (Beatles)
3. Billy Bragg & Wilco – Secrets Of The Sea (Woody Guthrie)
4. Ramones – Out Of Time (Rolling Stones)
5. Numismata – Atômico Platônico (Vanusa)
6. Samamidon – Head Over Heels (Tears for Fears)
7. Rufus Wainwright – One Man Guy (Loudon Wainwright III)
8. Stevie Wonder – Light My Fire (The Doors)
9. Ronnie Von – My Cherie Amour (Stevie Wonder)
10. Ryan Adams – Wonderwall (Oasis)
11. Stereophonics – Handbags And Gladrags (Rod Stewart e outros)
12. Uncle Tupelo – Gimme Gimme Gimme (Black Flag)
13. Elliott Smith – Care of Cell 44 (The Zombies)
14. Iron Horse – Ride The Lightning (Metallica)
15. Johnny Cash – The Mercy Seat (Nick Cave)
16. Fagner – A Palo Seco (Belchior)

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podcast

chorumecast #4 – você está satisfeito?

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O Sarney não caiu fora, aquela mina que lhe prometeu amor irrevogável se desfiliou do seu partido, estão tentando lhe enfiar o criacionismo goela abaixo, o diretor do reality show não te achou comercializável o suficiente, o seu vídeo não viralizou a contento, seu topic não deu trend (nem com ajuda dos followers mais ponta firme), o pedido de participação no Interbarney não teve resposta, sua máscara cirúrgica personalizada rasgou, foi ver Halloween no cinema sem saber que a versão brasileira sofreu corte, escutou sem querer aquele spoiler inesquecível de um amigo que baixa sua série favorita e assiste antes que você. E assim por diante.

A lista é longa, mas convenhamos: mesmo livre dessas pequenas armadilhas contemporâneas, você estaria insatisfeito. Com outra coisa. Com alguma coisa. Ou mesmo com o fato de nada estar te incomodando. Dureza.

Não esquenta, não resfolega, o problema não atinge só você. É coisa nossa. Pra provar, o chorumecast da semana chega com exemplos de canções em que a insatisfação, a angústia ou o simples emputecimento barato dão as caras.

Os alvos são diversos: religião, trabalho, lazer, capitalismo, racionalidade, a realidade palpável, as sombras inomináveis da alma etc. Esse pessoal não tá legal. Tudo bem, nós também não estamos. E ouvir a seleção abaixo não vai resolver, mas pelo menos faz o tempo passar de forma um pouco menos desagradável.

  1. The Replacements – Unsatisfied
  2. Erasmo Carlos – A Banda Dos Contentes
  3. Aimee Mann – 31 Today
  4. The BellRays - Change The World
  5. Black Sabbath – Wicked World
  6. Cartola - Preciso me Encontrar
  7. Roberto Carlos – Como dois e dois
  8. Dead Kennedys – Life Sentence
  9. Talking Heads – Once in a Lifetime
  10. Minutemen – Shit from an Old Notebook
  11. Gang of Four - Natural’s Not In It
  12. The Who – Bargain
  13. Blur – Coffee & TV
  14. Uncle Tupelo - Graveyard Shift
  15. Supertramp - Logical Song
  16. Bruce Springsteen – Your Own Worst Enemy
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cinema

horror oral

dragmeSam Raimi parece ter feito Arraste-me Para o Inferno em torno do seguinte emoticon:

:O

Essa expressão de horror, argamassa de todo o cinema do gênero, vira o ponto central desse filminho maravilhosamente irresponsável. Raimi aplica regras do pastelão ao horror: uma boca escancarada, não importa que esteja aos berros, implora por ser… preenchida. Em vez de tortas, materiais insuportavelmente nojentos como insetos, punhos de velha e líquido de embalsamamento. A boca humana atrai de tudo aqui.

E Raimi vai além. Não bastam as gags (sim!) em torno do terror oral, ele cria uma protagonista ex-gordinha, do tipo que passa em frente a uma vitrine de doces e para para observá-la. E condiciona a conclusão de tudo a uma ação envolvendo uma boca também. É quase um tratado.

O filme inteiro é lindo. Raimi conhece tanto o ofício que já antecipa o que o espectador acha que ele vai fazer – e faz diferente, ou faz numa ordem inesperada. É como um mestre artesão à beira da bancada, trabalhando por prazer. Um dos filmes mais histericamente divertidos do ano – embora na matinê semi-vazia em que o assisti, não ouvi risos. Assustador :O

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