generico

Sherlock

Daniel Lima

Sugestão de série: Sherlock. É produção recente, britânica, muito bem escrita & dirigida e não tem nada a ver com o Guy Ritchie (guardei o melhor para o final). Adapta personagens e histórias de Arthur Conan Doyle para tempos atuais (Holmes tem um site autopromocional; Watson tem um blog) e não é 100% “fiel”, no sentido de que não usa os livros como uma bíblia a ser seguida e reproduzida, mas sim uma fonte de ideias. É excelente.

Benedict Cumberbatch está ótimo no papel de Sherlock, e o Dr. Watson de Martin Freeman é adorável. Conseguiram algo que considero difícil hoje em dia: evitam, na medida do possível, comparações com House. Declaradamente um subproduto de Sherlock Holmes, a existência e sucesso de House eram riscos evidentes para esse projeto, já que a ambientação moderna e a própria arrogância do personagem poderiam causar efeito inverso: o produto “original” ser acusado de plágio de seu “derivado”. Não é o caso. O Sherlock Holmes aqui não precisa de traumas físicos ou emocionais pra ser meio escroto: ele é assim simplesmente porque não tem paciência para acompanhar o raciocínio lento de todas as outras pessoas; ele está em outra frequência mental. É bastante divertido.

Um aviso sobre o formato da série: a primeira temporada tem… três episódios. Mas cada um tem uma hora e meia de duração. A segunda temporada deve ser exibida no 3º trimestre deste ano, no mesmo esquema. Estou ansioso.

3 perdas musicais precoces

Daniel Lima

Gostava, mesmo que sem tanto entusiasmo, de Amy Winehouse. Toda a conversa da “maldição dos 27″ pode até ser curiosa e tal, mas tenho outros nomes em mente quando penso em perdas musicais precoces – gente cujo talento imenso deixa a gente se perguntando, sem resposta, sobre os caminhos que tomariam caso vivessem e produzissem por mais algumas décadas. Eis aqui um ranking pessoal, só com músicos que morreram antes dos 30 anos.

 

3. Gram Parsons
Mestre country de primeira grandeza. Diferente dos outros dois nomes da lista, deixou obra até que razoável em quantidade: um álbum no Byrds, dois com o Flying Burrito Brothers e dois clássicos irrepreensíveis como artista solo, GP e Grievous Angel. Fazia um som ao mesmo tempo puro e moderno, com canções capazes de prospectar sua alma como uma broca da Petrobras. Ouvir $ 1.000 Wedding sem se emocionar é um atestado de óbito moral. Morreu aos 26 anos, num quarto de hotel, depois de se encharcar em álcool e morfina.

$ 1.000 Wedding | Still Feeling Blue | Wheels

 

 

2. Duane Allman
Talvez a única ameaça real ao reinado de Jimi Hendrix. Branquelo, sulista e constantemente drogado (acima da elevada média da época), manjava tudo de blues e improvisava como poucos. Para se ter uma ideia do poder de fogo do rapaz, há duas ótimas amostras disponíveis: o álbum ao vivo Live at Fillmore East, de sua banda fraternal, o Allman Brothers – não é um disco comum de uma banda de southern rock…; e o clássico do Derek and the Dominoes, Layla and Other Assorted Love Songs. Depois de ouvir o solo de Allman no final da versão de Wilson Pickett para Hey Jude, Eric Clapton saiu de forma desesperada à caça de Allman. Arrastou-o para o estúdio e, como resultado, fizeram um dos maiores discos de guitarreira da história do rock, e com certa vantagem para Allman. Para ouvir a diferença: Clapton toca Fender; Allman, Gibson – e muito slide. Morreu antes de completar 25 anos, acidente de moto.

Statesboro Blues (c/ Allman Brothers Band) | Hey Jude (c/ Wilson Pickett) | Any Day (Derek and the Dominos)

 

1. Nick Drake
Era um enigma em forma de gente, críptico até mesmo para a família e amigos próximos (até onde era possível). Mal lançou o primeiro disco e decidiu evitar ao máximo as performances ao vivo. Entocou-se numa casinha no campo com seus baseados, discos, antidepressivos e sinais iniciais de psicose. O terceiro álbum, Pink Moon, é um dos discos mais assombrosos já lançados. Morreu aos 26. Tinha problemas psicológicos graves, e pensar no que seria sua vida parece ser, necessariamente, imaginar a trajetória de alguém que de alguma forma tivesse superado doenças mentais e sofrimentos emocionais imensos. Como sua obra teria sido afetada por essa evolução? Meu palpite, 100% fantasioso, é que permaneceria recluso e lançaria discos em longos intervalos, invariavelmente surpreendendo a todos com os resultados. Gostaria de ouvir esses discos.

Northern Sky | Fruit Tree | Things Behind the Sun

Hotel Overlook, labirinto transmorfo

Daniel Lima

É notório: o Hotel Overlook em O Iluminado, filme do Stanley Kubrick, é um personagem importante, com seus corredores vazios, decoração opressiva e ares de labirinto. O que não se sabia tão claramente é que o design dos cenários no filme contém inconsistências espaciais muito estranhas – portas que não poderiam dar em lugar algum, janelas impossíveis, áreas sem qualquer conexão com outras partes do hotel… Com base em mapas feitos a partir de cenas do filme e em plantas de produção, um inglês chamado Rob Ager passou a limpo, em vídeo, as incongruências do set — algumas até impressionantemente óbvias, depois que ele as esfrega na nossa cara. As análises vão aí embaixo, em duas partes. São sensacionais.

A impressão que tive, não conseguindo escapar da mentalidade de tiete: Kubrick era gênio com folga e deve ter pensado em coisas que você e eu ainda vamos demorar anos pra notar em seus filmes.

Breaking Bad s04e01: “Box Cutter”

Daniel Lima

Os colegas do Churrasco na Laje antigamente prestavam importante serviço público: a cada episódio de Breaking Bad, criavam um post e liberavam os comentários pra gente se dizer estupefato com o rumo dos acontecimentos e jurar amor eterno e servidão ao criador da série, Vince Gilligan. Como o blog dos caras tá aparentemente morto e essa vibe não pode acabar nunca, resolvi puxar o fórum pra cá e ver o que acontece. Depois desse começo de temporada, assunto não deve faltar.

Então já sabem: nos comentários do post, ♠SPOILERS♠ tão liberados.

“In the evening”

Daniel Lima

(…)

Nothing in the clip is classic, the band is on its last legs, and no part of the performance would be included among the 500 greatest moments in Zeppelin’s history. But watch it again. Watch it 10 times. When is the last time you went to a concert and something like this actually happened, despite the groups overt efforts to make it so? When is the last time you watched a band play this well, for this long, without even trying? How often are you able to see the very premise of rock music, produced on the largest possible scale, as an act of utter normalcy? How many bands aspire to this alleged mediocrity and totally fail?

This is Led Zeppelin when they sucked. And wouldn’t it be wonderful if all things were this bad?

Chuck Klosterman disseca uma apresentação qualquer do Led Zeppelin.

A moralidade em “Breaking Bad”

Daniel Lima

“I’m pretty much agnostic at this point in my life. But I find atheism just as hard to get my head around as I find fundamental Christianity. Because if there is no such thing as cosmic justice, what is the point of being good? That’s the one thing that no one has ever explained to me. Why shouldn’t I go rob a bank, especially if I’m smart enough to get away with it? What’s stopping me?” – Vince Gilligan, criador da série Breaking Bad

Ótima reportagem do New York Times sobre a volta do melhor seriado da atualidade. Vai ser foda.

Mas eu só queria um burguer

Daniel Lima

Guarde para ver quando as batatas estiverem assando: Nathan Myhrvold fala sobre os processos e descobertas culinárias que transformaram-se no petardo Modernist Cuisine, uma anomalia editorial sob qualquer ponto de vista. São seis volumes, ou 2.500 páginas, em que toda a nerdice evidente em Myhrvold é obstinadamente direcionada à redefinição dos limites do conhecimento sobre a física e a química do preparo de alimentos. O vídeo, de quase uma hora, é uma palestra em que Myhrvold, de forma empolgada e aleatória, fala sobre experimentos absurdos, fotografias em corte lateral, pipocas estourando em câmera hiper-lenta e outras coisas legais. É muito bom.

As fotos são muito impressionantes

Os seis volumes custavam US$ 625 e esgotaram na pré-venda. Deve ser visualmente espetacular, delirante, obssessivo e ilegível.

Ideia para reality show

Daniel Lima

Nome: Esquadrão da Filosofia.

Premissa básica: produção localiza pessoas com histórias comoventes de falta de reflexão pessoal e problemas com a compreensão dos dilemas humanos de sua época e as submetem a uma maratona de intensivas leituras de textos filosóficos clássicos, debates atentos e exercícios de escrita.

Estrutura de um episódio: cada programa dura cerca de 80 horas (25 minutos de intervalos comerciais). Nos primeiros 10 minutos, apresentamos o participante e sua visão de mundo. Daí passamos 79h no processo de metamorfose intelectual. O ritmo da edição é ágil e rápido, para manter o telespactador grudado na poltrona. Os últimos 50 minutos são dedicados à reapresentação o participante à família e aos amigos (estupefatos!). O resultado de sua evolução pessoal é demonstrado geralmente por meio de discussão de temas do noticiário (a pena de morte é uma punição justa? a ética do político é a ética do cidadão? o indivualismo no embarque do metrô é moralmente justificável?), numa ocasião social trivial entre esses membros: um churrasco, o almoço de domingo, um velório. A emoção é um aspecto importante dessa conclusão.

Apresentadores possíveis: Luciano Huck, Wandi Doratiotto, Ciro Bottini.

Prêmios: um curso de grego; um ano de Bilhete Único.

O cultivo de abas

Daniel Lima

Guardo espaço especial no meu coração para algumas funcionalidades recentes dos browsers. A principal delas: a função de registro e resgate de sua sessão anterior – aquela que recupera suas abas abertas na última vez que você fechou o navegador. Faço uso constante, principalmente no trabalho. Alguns efeitos práticos são interessantes.

O primeiro: aprendo a conviver com certas abas. Somos velhos conhecidos. Conheço seus defeitos e os aceito. Aquele artigo de sete “páginas” digitais na GQ sobre Garry Shandling está aberto há quase duas semanas, à espera. No início, o olhar sobre a aba é da ilusão de urgência; é a fase mais volátil, passa rápido. A fase seguinte é a da amnésia: passo o olho sobre a etiqueta da aba e me pergunto por alguns instantes, “que diabos é isto mesmo?”. Relembro, abro, releio título, linha fina e legenda de foto, as primeiras frases do abre; e parto para outra. Ainda não é a hora. Ambos (a aba e eu) sabemos que essa hora, se vier, é incerta e imprevisível. Distrações e outras abas demandam atenção. O texto é longo e o parágrafo inaugural não fisga. Já li piores, penso, e preservo a aba no mesmo lugar, ocupando memória RAM. Sei que ela está lá. Por ocasião do contexto ideal de leitura – o vislumbre de um ócio limitado, porém sem interrupções por pelo menos dez minutos – recorrerei a ela.

O outro efeito é a sedimentação de abas, como as camadas de detritos da Terra que se acumulam umas sobre as outras. A aba inicial é a do Gmail; a seguinte, do Google Reader. São o núcleo da navegação. Daí em diante, opera a elementar ordem cronológica. Os depósitos informacionais mais próximos a essas duas abas são os mais antigos, geralmente os mais perenes, concentrados, ricos em combustível mental. Alguns se acumulam por semanas ou até meses, eras geológicas em tempo de internet. É o caso dessa lista de “Nearly 100 Fantastic Pieces of Journalism” da Atlantic. Lista respeitável, suculenta, virtualmente infinita de descobertas. Ainda não li um sequer. Tá lá.

Do lado oposto da linha do tempo geológica, está o artigo da Wikipédia sobre sedimentação, aberto brevemente para checar se minhas noções rasteiras de geologia, adquiridas em salas de aula do século passado, não me farão enfrentar vergonha excessiva. Já fechei.

Tais abas não podem acabar ocultas em lista de favoritos; favoritos, para mim, são atalhos recorrentes, de consumo rápido. Não tratam com a precisão necessária a fauna e flora de páginas abertas. Raramente são menos que três dezenas. Por volta de 40 é um bom número. A depuração de horas e dias e semanas de navegação rende um navegador com história (e histórico), com personalidade forte, com algo a dizer.

Ocasionalmente, em geral por erro de operação, perco o registro da última sessão aberta. É sinal de que recomeçar também é bom.

Frazen, monumental

Daniel Lima

Este discurso de formatura proferido pelo escritor Jonathan Frazen no Kenyon College deu origem a este artigo no NYT, traduzido pelo Link. Não foi à toa. Pequenos trechos:

Permita-me propor a ideia de que, conforme nossos mercados descobrem e respondem àquilo que os consumidores mais desejam, nossa tecnologia se torna extremamente hábil na criação de produtos que correspondam ao nosso ideal fantasioso de um relacionamento erótico, no qual o objeto amado se entrega por completo sem exigir nada em troca, instantaneamente, fazendo que nos sintamos todo-poderosos, sem criar cenas constrangedoras quando é substituído por um objeto ainda mais sexy, sendo então relegado a uma gaveta. (…)

Não existe a possibilidade de curtir cada partícula da personalidade de uma pessoa real. É por isso que um mundo de curtição acaba se revelando uma mentira. Mas é possível pensar na ideia de amar cada partícula de uma determinada pessoa. E é por isso que o amor representa tamanha ameaça existencial à ordem tecnoconsumista: ele denuncia a mentira.

Isso não equivale a dizer que o amor envolve apenas as brigas. O amor é questão de empatia ilimitada, nascida de uma revelação feita pelo coração mostrando que outra pessoa é tão real quanto você. E é por isso que o amor, ao menos no meu entendimento, é sempre específico. Tentar amar a toda a humanidade pode ser um empreendimento digno, mas, de um jeito engraçado, isso mantém o foco no eu, no bem estar moral ou espiritual do eu. Ao passo que, para amar uma pessoa específica e identificar-se com as lutas dela como se fossem as suas, é preciso abrir mão de parte de si.

Poucas vezes li um comentário tão lúcido sobre a influência da tecnologia e das redes sociais sobre os medos e sentimentos humanos.

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